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Hipotermia no Camping: Sintomas, Tratamento e Prevenção

Aprenda a identificar e tratar hipotermia no camping. Sintomas por fase, o que fazer (e o que não fazer), e como prevenir em clima brasileiro.

Marina Campos
8 min de leitura
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Marina Campos

Especialista em Montanhismo

Montanhista e guia de trilhas há 12 anos. Especialista em técnicas de orientação, primeiros socorros e segurança em alta montanha.

A hipotermia não é exclusiva de neve e temperaturas negativas. No Brasil, acontece com mais frequência do que se imagina — especialmente em regiões serranas como a Mantiqueira, Campos do Jordão e serras gaúchas, onde as noites de inverno podem chegar a 5°C ou menos. Add chuva, vento e roupa molhada, e você tem a receita para uma emergência médica.

Em 2019, dois trilheiros precisaram ser resgatados no Pico das Agulhas Negras (Itatiaia) após passarem a noite ao relento com temperaturas próximas de 0°C. Um deles apresentava confusão mental e dificuldade para falar — sinais clássicos de hipotermia moderada. O desfecho foi feliz porque havia sinal de celular e o SAMU foi acionado a tempo .

Este artigo vai te ensinar a reconhecer os sinais de hipotermia, o que fazer (e o que não fazer) e como prevenir para que sua aventura não termine em resgate.

O que é hipotermia e por que acontece

Hipotermia ocorre quando a temperatura central do corpo cai abaixo de 35°C. O corpo humano funciona melhor entre 36,5°C e 37,5°C. Quando a perda de calor supera a capacidade de gerar calor, a temperatura começa a cair.

Não precisa estar nevando. Os três fatores de risco principais são:

  1. Frio — óbvio, mas temperaturas de 10-15°C já são perigosas se combinadas com os outros fatores
  2. Umidade — roupa molhada perde 90% do poder de isolamento térmico
  3. Vento — o efeito “wind chill” faz a temperatura percebida cair drasticamente

No Brasil, o cenário mais comum é: trilheiro sua durante a subida, a temperatura cai à noite, a roupa não seca e o vento aumenta. Em poucas horas, a temperatura corporal começa a cair.

Sintomas: reconheça as fases da hipotermia

A hipotermia se desenvolve em três fases. Saber identificar cada uma é crucial para agir a tempo.

Hipotermia leve (32-35°C)

É o estágio inicial. A pessoa ainda está consciente e conseguindo se comunicar:

  • Tremores incontroláveis — o corpo tenta gerar calor
  • Mãos e pés frios e dormentes — vasoconstrição periférica
  • Movimentos menos coordenados — dificuldade para fechar zíperes, amarrar cadarços
  • Fala levemente arrastada — como se estivesse ligeiramente embriagada
  • Fadiga e sonolência — o corpo está economizando energia

Nesta fase, a pessoa geralmente consegue se aquecer sozinha se removida do ambiente frio e protegida do vento.

Hipotermia moderada (28-32°C)

A situação se torna grave. Os tremores param porque o corpo não tem mais energia para produzi-los:

  • Tremores cessam — sinal de alerta crítico
  • Confusão mental — a pessoa não sabe onde está, pergunta a mesma coisa repetidamente
  • Fala ininteligível — dificuldade para formar frases completas
  • Comportamento irracional — algumas pessoas tentam tirar a roupa (fenômeno paradoxal)
  • Pele pálida e azulada — especialmente lábios e unhas
  • Batimentos cardíacos lentos — menos de 60 bpm

Nesta fase, a pessoa não consegue se aquecer sozinha. Precisa de ajuda externa e evacuação médica.

Hipotermia grave (abaixo de 28°C)

Emergência médica com risco de morte:

  • Inconsciência — a pessoa não responde a estímulos
  • Ausência total de tremores
  • Músculos rígidos — o corpo está “congelado”
  • Batimentos cardíacos muito lentos ou irregulares
  • Respiração superficial ou ausente

Na hipotermia grave, a pessoa pode parecer morta. Nunca declare morte prematuramente em casos de hipotermia — o metabolismo extremamente lento pode preservar funções vitais. A evacuação médica urgente é obrigatória.

O que fazer: protocolo de tratamento

A Cruz Vermelha Brasileira e a Mayo Clinic estabelecem protocolos claros para tratamento de hipotermia. Aqui está o passo a passo adaptado para camping.

Passo 1: Remova a fonte de frio

  • Leve a pessoa para um local protegido do vento
  • Se não houver abrigo, use a barraca como barreira
  • Separe a pessoa do chão frio (coloque isolante ou manta por baixo)

Passo 2: Remova roupas molhadas

Cada minuto com roupa molhada acelera a perda de calor. Corte a roupa se necessário para evitar movimentos excessivos. Seque a pele com toalha ou papel.

Passo 3: Aqueça gradualmente

AQUEÇA O CENTRO DO CORPO PRIMEIRO: pescoço, peito e virilha.

  • Manta térmica (também chamada de manta de sobrevivência) — custa R$ 15-30 em lojas como Decathlon e reflete o calor corporal de volta
  • Bolsas de água morna nas axilas e virilha (nunca quente demais — pode causar queimaduras)
  • Calor do próprio corpo — se não houver equipamento, outra pessoa pode se deitar ao lado e compartilhar calor

Passo 4: Hidrate (apenas se consciente)

Se a pessoa estiver consciente e conseguindo engolir:

  • Ofereça líquidos mornos e açucarados (chá com açúcar, achocolatado)
  • NUNCA dê bebida alcoólica — álcool dilata os vasos sanguíneos e aumenta a perda de calor
  • Evite café em excesso — a cafeína também é vasodilatadora

Passo 5: Evacue se necessário

Ligue para o SAMU 192 se:

  • A temperatura não subir após 30 minutos de aquecimento ativo
  • A pessoa apresentar confusão mental ou perda de consciência
  • Os tremores cessarem
  • Houver suspeita de hipotermia moderada ou grave

Em parques nacionais geridos pelo ICMBio , a equipe do parque pode acionar resgate especializado.

O que NÃO fazer: erros comuns que pioram a situação

Alguns “remédios populares” são perigosos e podem matar:

❌ Não aqueça os membros primeiro

Aquecer braços e pernas faz o sangue frio voltar ao coração, causando choque térmico e possível parada cardíaca. Foque sempre no tronco, pescoço e virilha.

❌ Não esfregue a pele

Massagens e fricção podem danificar tecidos já fragilizados pelo frio. Aplique calor suavemente.

❌ Não dê banho quente

Imersão em água quente causa choque térmico. O aquecimento deve ser gradual.

❌ Não ofereça álcool

Álcool dá uma sensação temporária de calor, mas na verdade acelera a perda térmica ao dilatar os vasos periféricos.

❌ Não alimente pessoas inconscientes

Risco de aspiração e asfixia. Se a pessoa não está consciente, não tente dar nada pela boca.

Prevenção: como evitar hipotermia no camping

A prevenção começa muito antes de a temperatura cair.

Vestimenta adequada

O sistema de camadas é fundamental:

  1. Camada base — sintética ou lã (nunca algodão, que retém umidade)
  2. Camada isolante — fleece ou plumas
  3. Camada externa — corta-vento e impermeável

Troque a roupa molhada de suor imediatamente ao chegar no acampamento. O suor que ajuda a esfriar durante a trilha vira inimigo quando a temperatura cai.

Equipamentos essenciais

  • Saco de dormir com temperatura adequada — verifique o “comfort rating”, não o “limit rating”. Se você acampa em locais que chegam a 5°C, use um saco rated para 0°C ou menos.
  • Isolante térmico — o chão rouba calor. Um bom isolante com R-value acima de 3 é essencial para noites frias.
  • Manta térmica — leve sempre uma no kit de primeiros socorros. Pesa 50g e pode salvar uma vida.

Monitoramento do grupo

Em grupos, designe alguém para observar sinais de hipotermia nos outros. A pessoa afetada frequentemente não percebe que está perdendo capacidade cognitiva — é como ficar bêbado sem saber.

Perguntas simples ajudam a identificar confusão mental:

  • “Que dia é hoje?”
  • “Onde estamos?”
  • “Qual é o seu nome completo?”

Respostas erradas ou demoradas são sinal de alerta.

Hipotermia no contexto brasileiro

O Brasil tem características específicas que aumentam o risco:

  • Variação térmica extrema — dias de 30°C e noites de 5°C são comuns em regiões serranas
  • Umidade alta — dificulta a secagem de roupas e equipamentos
  • Subestimação do frio — muitos acampadores não se preparam adequadamente porque “é Brasil, não faz tanto frio assim”
  • Locais remotos — parques como Itatiaia, Caparaó e Aparados da Serra têm áreas sem sinal de celular

Se você frequenta essas regiões, considere fazer um curso de primeiros socorros com a Cruz Vermelha ou entidades similares. O investimento é pequeno comparado ao risco.


Para um guia completo de itens de emergência para levar no seu kit, confira nosso artigo sobre kit de primeiros socorros para camping. Se você faz trilhas noturnas, o risco de hipotermia aumenta — a temperatura cai significativamente após o pôr do sol.

Referencias

Fontes consultadas

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